Mundo, violento mundo, sem rima e sem solução: talvez uma das imagens mais brutais da nossa barbárie esteja nos lixões, lugares em que multidões sobrevivem como se fossem lixo, restos sociais. Lá elas rastejam blindadas por nossa indiferença, como se esta situação não fosse um problema de todos, como se gente – e lixo – não fossem responsabilidade social. Uma avalanche de perguntas brota destas constatações: Estamira - Beira do Mundo se estrutura ao redor desta vertigem de perguntar. A cena deseja saber a espessura da nossa indiferença, a qualidade do nosso olhar cidadão para o mundo, em que grau estamos, dentro de nós, comprometidos com a delicadeza da vida.
Vale a pena ver. Se em nossa época está nascendo um ser humano novo, disposto a lutar, em paz, para melhorar a sociedade, a encenação sintoniza com esta nova ordem até na linguagem teatral adotada. A base para a construção da cena é um artifício caro à arte contemporânea, a pergunta sobre a ilusão e a verdade, a mistura de referências. São dois pontos de partida – a biografia de Estamira, do filme de Marcos Prado, e a personalidade da atriz Dani Barros. O roteiro do filme foi trabalhado com a diretora sob a luz da memória afetiva da intérprete. Construiu-se assim uma ousada mistura de relato, memória, documentário, ficção, vida e arte.
Estamira existiu, a atriz decidiu conhecê-la. Foi uma mulher real, massacrada pela indigência da sociedade brasileira. Nasceu em um campo em ruínas; liquidada pelo horizonte familiar de miséria e prostituição, violada e usurpada em seus direitos mínimos, migrou para a cidade e acabou sobrevivendo graças à exploração do lixo depositado em Jardim Gramacho. Tornou-se uma louca social, alguém que precisou escolher a desrazão para sobreviver em uma sociedade indiferente ao terror da miséria. A sua fala, registrada no filme, proclamava a fragilidade da vida. Dilacerante, o delírio da mulher-lixo revela uma lógica constrangedora: a defesa da integridade do ser humano feita por uma pessoa atropelada pela existência.
Local: Teatro. 70 min.
Não recomendado para menores de 14 anos
R$ 6,00 [inteira]
R$ 3,00 [usuário matriculado no Sesc e dependentes, aposentado, pessoa com mais de 60 anos, pessoa com deficiência, estudante e professor da rede pública com comprovante]
R$ 1,50 [trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo matriculado no Sesc e dependentes]
Serviço:
SESC São Carlos
Dia(s) 12/06
Quarta, 20h.
Avenida Comendador Alfredo Maffei, 700
Jardim Gibertoni - Telefone: (16) 3373-2333